A espiritualidade cristã

Pastorais, Santidade -

A espiritualidade cristã

No decurso da história da igreja cristã é possível observar que, em diversos momentos, houve distorções, equívocos e limitações na compreensão e prática da espiritualidade. Uns transformaram a devoção cristã numa experiência meramente contemplativa, enquanto outros fizeram dela uma prática especulativa, com obsessão por questões teológicas e doutrinárias.

A prática de uma espiritualidade equilibrada e saudável, segundo o exemplo de Jesus, continua a ser um desafio a todos nós. Especialmente nestes dias, em que os extremos tanto atraem as pessoas, necessário se faz buscar o equilíbrio na experiência religiosa, mediante a prática de uma espiritualidade verdadeiramente bíblica e saudável.

A Bíblia não favorece a ideia de uma espiritualidade verticalista e individualista, que leva em consideração apenas a busca da comunhão pessoal com Deus ou o cumprimento de preceitos e normas.

A espiritualidade cristã inclui nossos relacionamentos com o próximo. Segundo o ensino de Jesus, a verdadeira religião se resume no amor: amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. A qualidade dos nossos relacionamentos com o próximo e com o mundo constitui-se num importante critério para se avaliar a veracidade e intensidade de nossa espiritualidade.

Quando o indivíduo assume posturas egoístas e individualistas, a espiritualidade é empobrecida e até anulada. A indiferença para com o próximo e suas necessidades é incompatível com a verdadeira espiritualidade. A atitude de Caim em relação a seu irmão Abel comprovou a falsidade da espiritualidade que ele tentava evidenciar quando ofertava ao Senhor.

A espiritualidade cristã inclui nossos relacionamentos com o próximo; e depende do grau de envolvimento e compromisso que temos para com ele. Em sua primeira Carta, o apóstolo João recomenda: “aquele que ama a Deus, ame também a seu irmão” (I Jo 4.21).

Outro aspecto a ser ressaltado é que a espiritualidade cristã abrange a totalidade de nossa vida neste mundo. Comumente, a ideia que se tem de espiritualidade é que ela está relacionada tão somente à vida religiosa do indivíduo, limitando-se a práticas devocionais, no contexto do templo ou do silêncio do quarto. Porém, a abrangência da espiritualidade cristã vai muito além. Para o cristão, nenhuma área da vida está isenta de obrigação para com Deus: “E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus...” (Cl 3.17).

A espiritualidade cristã tem a ver com o todo da vida. Está relacionada às questões sociais e éticas que envolvem a humanidade. Nessa perspectiva, pode-se dizer que, na experiência do cristão, os anseios pelas delícias do céu não ofuscam os sonhos de um mundo melhor; a celebração pela conquista da salvação não abafa os gemidos dos que não têm esperança; e a visão da glória de Deus não impede um olhar misericordioso para as mazelas deste mundo.

A espiritualidade cristã se desenvolve no contexto deste mundo; e deve se manifestar em cada experiência nossa: seja na igreja, em casa, no trabalho, no lazer, nas festas, na escola, na participação política, na expressão da cultura, enfim, tanto nos compromissos religiosos quanto no exercício da cidadania. A vida secular do cristão não pode ser menos espiritual do que a sua vida religiosa.

Finalmente, é importante ressaltar também que a espiritualidade cristã busca a transformação da realidade. A eficácia da nossa comunhão com Deus é comprovada nas consequências que ela produz. Não há como separar espiritualidade e missão. Está em voga, hoje, um tipo de espiritualidade que faz muito barulho, mas não produz nada. É a espiritualidade do espetacular, dos chavões, do emocionalismo, advinda de uma subcultura alienante, marcada pelo legalismo. Esse modelo deformado de espiritualidade, além de não produzir transformação social no contexto em que é praticada, ainda tem levado muitos de seus praticantes a sérios desajustes psicológicos.

Por outro lado, constata-se também um modelo de espiritualidade baseado no academicismo teológico, que suprime o amor e idolatra a verdade. A Palavra de Deus recomenda: “seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo” (Ef 4.15).

O resgate da espiritualidade cristã, segundo o modelo de Jesus, além de transformar a nós mesmos, é capaz de transformar o meio em que vivemos: cada vez mais e para melhor.

Rev. Eneziel Peixoto de Andrade

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