Religião e Justiça Social

Igreja, Pastorais -

Religião e Justiça Social

“Então romperá a tua luz como a alva, a tua cura brotará sem detença, a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do Senhor será a tua retaguarda; então clamarás, e o Senhor te responderá; gritarás por socorro, e ele dirá: Eis-me aqui... então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia. O Senhor te guiará continuamente, fartará a tua alma até em lugares áridos, e fortificará os teus ossos; serás como um jardim regado, e como um manancial, cujas águas jamais faltam. Os teus filhos edificarão as antigas ruínas; levantarás os fundamentos de muitas gerações, e serás chamado reparador de brechas, e restaurador de veredas para que o país se torne habitável.”  (Is 58.8-12)

É verdade, moramos “em um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”, mas, com graves problemas políticos, econômicos e sociais, que acabam por marginalizar considerável parcela de sua população.

Infelizmente, para milhões de brasileiros, este país não tem proporcionado condições dignas de vida. Diante disso, somos desafiados a sonhar com um país habitável, não apenas para alguns, mas, para todos. E o capítulo 58 do livro atribuído ao profeta Isaías, nos acena com essa possibilidade.

Isaías 58 está inserido em um bloco que compreende os capítulos 56 a 66, os quais apresentam uma coleção de ensinos que procuravam estimular a comunidade que viera do exílio e se reunira em Jerusalém com os que estavam dispersos. Esses capítulos condenam os abusos que começaram a aparecer e apontam atitudes que dão autenticidade à espiritualidade do povo de Deus.

O capítulo 58 apresenta pistas para uma reconstrução nacional fundada no compromisso com Deus e no respeito ao próximo: “Os teus filhos edificarão as antigas ruínas; levantarás os fundamentos de muitas gerações, e serás chamado reparador de brechas, e restaurador de veredas para que o país se torne habitável.” (Is 58.12).

Somos chamados a participar da construção de um país melhor; e, na condição de cristãos, essa responsabilidade torna-se ainda maior. Tal responsabilidade vai muito além da participação das eleições, quando muitos optam pela indiferença inconsequente e, muitos outros, pela empolgação acrítica e ingênua.

Conforme a profecia de Isaías, a construção de um país habitável exige, entre outras coisas, uma religião comprometida com a justiça social. A palavra-chave em Isaías 58 é “jejum”: ocorre 7 vezes. Só que a aplicação desse termo, naquele contexto, não se limita à prática devocional, propriamente dita, do ato de abster-se de alimentos. O termo pode ter uma aplicação mais ampla, apontando para a totalidade da religiosidade professada pelo povo de Israel naqueles dias.

O formalismo religioso havia roubado da religião de Israel a sensibilidade, a sensatez e o poder, transformando-a numa religião cínica. A assiduidade do povo na busca por Deus, o interesse em conhecer os caminhos do Senhor, a veemência do discurso religioso, o exercício de práticas devocionais como o jejum, por exemplo, não passava de uma dissimulação. E, como não poderia deixar de ser, tal religião tornou-se estéril e ineficaz. E, diante da ineficácia de sua religião, eles questionavam a Deus, dizendo: “Por que jejuamos nós e tu não atentas para isso? Por que afligimos as nossas almas, e tu não o levas em conta?” (Is 58.3). Aí, então, o Senhor responde: “Eis que no dia em que jejuais cuidais dos vossos próprios interesses e exigis que se faça todo vosso trabalho. Eis que jejuais para contendas e rixas, e para ferirdes com punho iníquo; jejuando assim como hoje, não se fará ouvir a vossa voz no alto.” (Is 58.3,4).

O Senhor desmascara a piedade fingida, a contradição entre cultuar a Deus e manter um sistema de exploração que maltrata o próximo.

A igreja brasileira deve resistir à tentação de viver um evangelho divorciado da realidade social que a cerca. É preciso, urgentemente, descer do “monte da transfiguração” e encarar o “vale da aflição”. Não podemos esquecer que vivemos em um país que está entre os mais injustos do mundo, em termos de distribuição de renda. Um país em que os recursos públicos escoam pelos diversos ralos da corrupção generalizada.

O povo de Deus, neste país, precisa praticar uma religião mais identificada com a causa do oprimido, do sem-voz e sem-vez. Deve buscar viver um evangelho fortemente comprometido com a justiça social e com a ética, pois, se assim não for, a sua presença corre o risco de se tornar tão inútil quanto o sal quando perde o seu sabor (Mt 5.13).

Jesus considerou “bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça” (Mt 5.6).

O profeta Isaías declara que o país se tornará habitável quando atendermos à exigência de uma religião comprometida com a justiça social: “Se tirares do meio de ti o jugo, o dedo que ameaça, o falar injurioso; se abrires a tua alma ao aflito, e fartares a alma aflita...” (Is 58.9)

Essa é a religião que agrada a Deus: “que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo.” (Is 58.6).

Percebe-se, hoje, que os espaços deixados por um Estado omisso e por uma igreja que poderia ser mais atuante têm sido, muitas vezes, ocupados por ONGs que levantam bandeiras, as quais, na verdade, deveriam ser levantadas pela igreja de Cristo. E o pior é quando o crime organizado ocupa esses espaços, através de uma espécie de governo paralelo, à margem da lei, como já acontece em várias cidades brasileiras.

Para a construção de um país habitável para todos os brasileiros carecemos, urgentemente, de uma religião mais comprometida com a justiça social.

Rev. Eneziel P.  de Andrade


2 comentários

  • Eliude

    A paz irmão Rev. Eneziel> Muito boa sua exposição sobre a realidade brasileira, infelizmente a igreja brasileira não tem ocupado o lugar que o Senhor Jesus nos deixou como embaixadores do Reino.

  • Amélia Cunha

    Olá,Rev Eneziel. Parabéns pelo belo texto, verdadeiro e oportuno. Texto que de forma clara nos coloca diante de uma grande verdade bíblica. Que Deus nos ilumine e nos leve para a prática da palavra. Grande abraço.

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